Poucos artistas conseguiram transformar um sofrimento psíquico tão íntimo em uma linguagem visual reconhecível a quilômetros de distância. Yayoi Kusama, nascida em mil novecentos e vinte e nove na cidade japonesa de Matsumoto, é uma dessas raras exceções.
Desde criança, ela relatava alucinações visuais e auditivas: campos de flores conversavam com ela, padrões de bolinhas cobriam paredes e até o próprio corpo. Em vez de reprimir essas visões, Kusama decidiu, ainda adolescente, registrá-las obsessivamente em desenhos e pinturas.
A família, tradicional e conservadora, via com maus olhos essa vocação artística. A mãe chegava a rasgar os cadernos de desenho da filha, na esperança de que ela desistisse daquilo que considerava um capricho excêntrico e improdutivo.
Kusama, entretanto, era teimosa o bastante para atravessar oceanos em busca de liberdade criativa. Em mil novecentos e cinquenta e oito, mudou-se para Nova York, praticamente sem dinheiro, decidida a se inserir numa cena artística dominada, à época, quase exclusivamente por homens.
Lá, ela desenvolveu as chamadas Infinity Nets, telas gigantescas cobertas por redes minúsculas e repetitivas de pinceladas. O gesto, à primeira vista simples, escondia um exercício exaustivo de autoapagamento: pintar até que o próprio corpo se dissolvesse na obra.
Kusama também se tornou pioneira em instalações imersivas, décadas antes de esse formato se popularizar. Suas famosas salas de espelhos infinitos convidam o visitante a se perder entre reflexos multiplicados de luzes coloridas, numa espécie de vertigem controlada.
Nos anos sessenta, ela chocou a sociedade nova-iorquina com performances que misturavam nudez, pintura corporal e crítica política, sobretudo contra a Guerra do Vietnã. A imprensa a rotulava ora de gênio, ora de excêntrica, raramente encontrando um meio-termo justo.
Apesar do sucesso relativo entre a vanguarda, Kusama sofria financeiramente e enfrentava crises depressivas recorrentes. Em determinado momento, chegou a tentar o suicídio, episódio que ela mesma relataria mais tarde com uma franqueza pouco comum entre artistas de sua geração.
Em mil novecentos e setenta e três, voltou ao Japão, esgotada física e emocionalmente. Alguns anos depois, decidiu internar-se voluntariamente num hospital psiquiátrico de Tóquio, onde reside até hoje, mantendo um ateliê a poucos passos dali.
Longe de significar o fim de sua carreira, essa escolha inaugurou uma fase de produtividade impressionante: esculturas de abóboras gigantes cobertas de bolinhas, colaborações com marcas de moda e exposições que atraem multidões em museus do mundo inteiro.
Kusama costuma repetir que a arte é, para ela, uma forma de terapia contra o que chama de aniquilação pessoal, a sensação de que sua identidade se dissolve constantemente diante da imensidão do universo.
Curiosamente, essa artista que passou décadas à margem do circuito comercial tornou-se, já idosa, uma das figuras mais requisitadas do mercado de arte contemporânea, com filas que dão a volta ao quarteirão para ver suas instalações.
A trajetória de Kusama desafia qualquer narrativa fácil sobre genialidade e sofrimento: nela, dor e criação não se anulam, mas convivem, lado a lado, dentro de padrões repetidos ao infinito.
Pasa el cursor por una palabra para ver la traducción al español · haz clic para escuchar desde ahí.