Nascer em uma família de catorze irmãos, em Calcutá, no ano de mil oitocentos e sessenta e um, poderia ter diluído qualquer talento individual em meio ao burburinho doméstico. Com Rabindranath Tagore, porém, aconteceu o contrário: aquela casa vibrante, cheia de músicos, pintores e reformistas, tornou-se o berço de uma das mentes mais versáteis do seu tempo.
Tagore detestava a escola formal, cujos métodos considerava rígidos demais para nutrir a curiosidade infantil. Essa aversão precoce germinaria, décadas mais tarde, na fundação de uma escola experimental sob as árvores de Santiniketan, onde as aulas aconteciam ao ar livre e a natureza era tratada como professora legítima.
Poeta desde a adolescência, ele escrevia originalmente em bengali, língua que muitos europeus da época sequer sabiam soletrar. Foi justamente essa obstinação em cultivar a própria língua materna que tornaria sua obra ainda mais surpreendente quando cruzasse fronteiras.
Em mil novecentos e treze, Tagore recebeu o Prêmio Nobel de Literatura pela coletânea Gitanjali, que ele mesmo havia traduzido para o inglês. Foi o primeiro autor não europeu a receber a honraria, façanha que abalou certas certezas eurocêntricas sobre onde residia a boa literatura.
A fama internacional, entretanto, veio acompanhada de um paradoxo incômodo: enquanto o Ocidente o enxergava como um sábio místico do Oriente, quase um clichê orientalista, Tagore via a si mesmo sobretudo como um educador preocupado com problemas concretos, como a pobreza rural e a autonomia econômica das aldeias.
Ele viajou por dezenas de países, dialogando com figuras como Einstein e Gandhi. Com este último, aliás, mantinha uma amizade respeitosa, ainda que temperada por divergências: Gandhi valorizava o artesanato manual como símbolo de resistência, ao passo que Tagore desconfiava de qualquer romantização da pobreza.
Tagore não se limitava à poesia. Compôs mais de dois mil cantos, escreveu romances, peças de teatro e ensaios, além de pintar quadros na velhice, quando as mãos trêmulas o impediam de escrever com a mesma fluidez de antes.
Duas de suas composições tornaram-se hinos nacionais: uma pertence à Índia e outra, escrita décadas antes de o país existir como Estado independente, tornou-se o hino de Bangladesh. Poucos autores no mundo podem reivindicar semelhante feito.
Politicamente, ele era um homem de contradições fecundas. Devolveu o título de cavaleiro concedido pela coroa britânica após o massacre de Amritsar, em mil novecentos e dezenove, mas também criticava certo nacionalismo indiano que considerava xenófobo e estreito de vistas.
Sua visão de mundo, cosmopolita antes que a palavra estivesse na moda, defendia que nenhuma cultura deveria isolar-se atrás de muralhas identitárias. Para ele, a verdadeira força de uma nação residia na capacidade de dialogar sem perder as próprias raízes.
Nos últimos anos de vida, apesar da saúde debilitada, continuou escrevendo poemas de rara serenidade sobre a morte iminente, sem jamais recorrer a um tom lamurioso. Faleceu em mil novecentos e quarenta e um, em Calcutá, cidade que jamais deixara de amar.
O legado de Tagore atravessa hoje escolas, hinos e bibliotecas, mas talvez sua contribuição mais duradoura seja mais sutil: a convicção de que educação verdadeira floresce onde há liberdade, curiosidade e contato genuíno com o mundo natural.
Ler Tagore em bengali, dizem os que dominam a língua, é uma experiência distinta de lê-lo traduzido; ainda assim, mesmo filtrada por outros idiomas, sua poesia continua a comover leitores de continentes que ele visitou apenas de passagem.
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