Katsushika Hokusai nasceu em mil setecentos e sessenta, na cidade de Edo, que hoje se chama Tóquio. A família dele era simples. O pai fazia espelhos para a corte, mas Hokusai nunca foi o herdeiro do negócio.
Aos seis anos, ele já desenhava tudo o que via na rua: cachorros, pescadores, pontes, montanhas. Aos catorze, começou a trabalhar em uma oficina de gravura em madeira, cortando os desenhos de outros artistas em blocos.
Aos dezoito anos, entrou no ateliê de um mestre famoso e aprendeu a técnica do ukiyo-e, as chamadas imagens do mundo flutuante. Essas gravuras mostravam atores de teatro, mulheres elegantes, paisagens e cenas do dia a dia.
Hokusai era um homem estranho e teimoso. Trocou de nome mais de trinta vezes durante a vida e mudou de casa quase cem vezes. Dizem que ele odiava limpar o ateliê: quando a bagunça ficava grande demais, ele simplesmente se mudava.
Ele desenhava de tudo. Publicou uma série de cadernos chamada Manga, com milhares de figuras rápidas: pessoas dormindo, gatos, fantasmas, ondas, insetos. Esses cadernos serviam de modelo para estudantes de desenho.
A obra mais famosa dele apareceu quando ele já tinha mais de setenta anos. É a série Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji, feita por volta de mil oitocentos e trinta.
Dentro dessa série está a gravura A Grande Onda de Kanagawa. Nela, uma onda enorme, com dedos de espuma, está prestes a cair sobre três barcos pequenos. Ao longe, calmo, aparece o monte Fuji coberto de neve.
A imagem funciona porque mistura medo e calma. O azul intenso do mar vinha de um pigmento novo, importado da Europa, chamado azul da Prússia. Esse azul deu à onda um brilho que o público japonês nunca tinha visto.
As gravuras eram baratas e circulavam em grande número. Décadas depois, elas chegaram à Europa e encantaram artistas como Van Gogh, Monet e Degas. Esse gosto europeu pela arte japonesa recebeu o nome de japonismo.
Hokusai teve uma vida difícil. Perdeu a esposa, ajudou financeiramente um neto endividado, sofreu um incêndio que destruiu o ateliê e viveu pobre em vários momentos. A filha dele, Oi, também era pintora e trabalhava ao lado do pai.
Perto do fim da vida, ele assinava as obras como o velho louco pela pintura. Escreveu que só aos setenta e três começou a entender a estrutura dos animais e das plantas, e que aos cem finalmente chegaria a algo divino.
No Japão daquela época, uma gravura passava por muitas mãos. O artista fazia o desenho, um gravador cortava a madeira e um impressor aplicava as cores, uma de cada vez. Hokusai trabalhava lado a lado com esses profissionais.
Ele também pintou cachoeiras, pontes antigas, pássaros e flores. Em cada série, procurava um jeito novo de mostrar a água: caindo, correndo, parada ou quebrando em ondas.
Hokusai gostava de espetáculos. Uma vez, diante de muita gente, pintou um enorme retrato do monge Daruma usando uma vassoura e baldes de tinta. Em outra ocasião, desenhou um pássaro em um grão de arroz.
Katsushika Hokusai morreu em mil oitocentos e quarenta e nove, com quase noventa anos. Conta-se que as últimas palavras dele pediam mais cinco anos de vida para se tornar, enfim, um verdadeiro pintor.
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