Berlim, agosto de mil novecentos e trinta e seis. O regime nazista havia planejado os Jogos Olímpicos como uma vitrine grandiosa de propaganda, destinada a comprovar, diante das câmeras do mundo inteiro, a suposta superioridade da chamada raça ariana. Jesse Owens desmontaria esse roteiro em apenas alguns dias.
Nascido em mil novecentos e treze no Alabama, neto de pessoas escravizadas, Owens cresceu numa família que migrou para Ohio em busca de trabalho fabril, fugindo das leis segregacionistas do sul dos Estados Unidos. Ainda menino, descobriu no atletismo um refúgio contra o racismo cotidiano.
No ensino médio, já colecionava recordes impressionantes, mas foi na universidade que consolidou sua lenda: em um único encontro atlético, em mil novecentos e trinta e cinco, quebrou três recordes mundiais e igualou um quarto, tudo isso em pouco mais de quarenta e cinco minutos, apesar de sentir fortes dores nas costas.
A ironia histórica é evidente: Owens, um homem negro, viajou aos Jogos de Berlim representando um país que também o tratava como cidadão de segunda classe. Nos Estados Unidos, ele não podia sequer entrar por certas portas de hotéis onde depois seria celebrado como herói.
Em Berlim, diante de um estádio lotado e de Adolf Hitler observando das arquibancadas, Owens conquistou quatro medalhas de ouro: nos cem metros rasos, nos duzentos metros rasos, no salto em distância e no revezamento quatro por cem metros.
Circulou por décadas a lenda de que Hitler teria se recusado a apertar a mão de Owens. A versão mais precisa dos historiadores é mais sutil: Hitler havia parado de cumprimentar pessoalmente qualquer medalhista após uma orientação do Comitê Olímpico, mas o episódio, ainda assim, tornou-se símbolo do fracasso da propaganda racista nazista.
Mais doloroso, talvez, tenha sido o tratamento recebido em seu próprio país. Ao retornar aos Estados Unidos, Owens não foi convidado à Casa Branca nem recebeu telegrama de felicitações do presidente Franklin Roosevelt, diferentemente de outros atletas brancos.
Sem patrocínios relevantes disponíveis para atletas negros naquela época, Owens precisou aceitar trabalhos peculiares para sustentar a família, incluindo corridas de exibição contra cavalos em feiras, uma humilhação que ele próprio reconheceria mais tarde com amargura.
Apesar das dificuldades financeiras, ele jamais deixou de defender publicamente a importância do esporte como ferramenta de dignidade, sobretudo para jovens negros que enfrentavam barreiras semelhantes às que ele havia superado.
Décadas depois, em mil novecentos e setenta e seis, Owens recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade, um reconhecimento tardio que, para muitos críticos, não compensava o silêncio institucional dos anos anteriores.
Owens também se tornou um símbolo controverso durante o movimento dos direitos civis: alguns atletas mais jovens o acusavam de ser complacente demais com o sistema, enquanto ele defendia que mudanças graduais eram mais eficazes que confrontos abertos.
Faleceu em mil novecentos e oitenta, vítima de câncer de pulmão, deixando um legado que ultrapassa em muito as quatro medalhas conquistadas naquela pista alemã: a prova viva de que o talento humano ridiculariza qualquer ideologia baseada em hierarquias raciais.
Hoje, o estádio olímpico de Berlim exibe uma rua com o nome de Jesse Owens, um gesto simbólico que tenta, tardiamente, reparar a injustiça histórica sofrida por um homem que correu mais rápido que o próprio ódio que o cercava.
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